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Hemácias (eritrócitos): conheça suas principais funções e alterações

09 nov
Postado por Marina Caxias Categoria: Blog

Nosso sangue é composto por uma porção líquida: o plasma e uma porção celular: constituído pelas hemácias ou eritrócitos, leucócitos e plaquetas. Nesse artigo nós vamos abordar especificamente as funções exercidas pelas hemácias. Também vamos apresentar algumas alterações que podem ocorrer com essas células e como pode ser realizado o diagnóstico laboratorial. Se você quiser saber mais sobre as as hemácias permaneça aqui. Mas se quiser saber sobre as outra células, é só clicar no link a seguir: Células do sangue

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O que são hemácias?

As hemácias são discos arredondados e bicôncavos, elas não possuem núcleo como outras células do nosso corpo. O seu formato bicôncavo facilita as trocas gasosas e também faz com que as hemácias sejam flexíveis, podendo viajar tranquilamente pelo sistema circulatório tanto pelas artérias (vasos com grande diâmetro) quanto pelos capilares (vasos com menor diâmetro) sem causar complicações.
Como veremos adiante, condições anormais fazem com que o formato bicôncavo das hemácias seja alterado e isso traz um prejuízo não só em seu formato, como também em sua função.
Quanto ao tamanho das hemácias, elas têm em média 7,5 μm de diâmetro, 2,6 μm de espessura perto de sua borda e 0,8 μm no centro.
Diferentemente dos leucócitos, as células do nosso exército de defesa, as hemácias não migram para os tecidos e assim permanecem dentro dos vasos sanguíneos.

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(Fonte: Adaptado de InfoEscola)

 

De onde vem as hemácias?

A resposta é: depende da fase da vida. Vamos explicar o porquê.
Primeiramente vamos dar nome a esse esse processo de produção das hemácias: eritropoiese.
Pois bem, nas primeiras semanas da gestação, a produção das hemácias ocorre no saco vitelino. No segundo semestre da gestação, o fígado do bebê e em menor escala pelo baço e linfonodos passam a ter essa função. No último mês de gestação e após o nascimento a produção ocorre na medula óssea através do estímulo da eritropoietina, um hormônio produzido pelos rins. Até o quinto ano de vida, em quase todos os ossos haverá a produção, e após os vinte anos de idade ela será feita na medula óssea dos ossos membranosos, como vértebras, costelas, esterno e íleo.
Conforme os anos vão passando, a medula óssea vai se tornando mais gordurosa e com isso passa a ser menos produtiva.
Neste contexto, na medula óssea existe a célula-tronco hematopoiética pluripotente “stem cell” que se prolifera e se diferencia nas hemácias e nas outras células sanguíneas (leucócitos e plaquetas). Essas células vão passando por etapas de maturação, até estarem prontas para ir até a circulação desempenhar suas funções.

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(Fonte: Adaptado de InfoEscola)

 

Quando tempo vivem as hemácias

As hemácias vivem por aproximadamente 120 dias. As hemácias senescentes vão perdendo sua integridade e com isso deixam de desempenhar sua função corretamente.
Diferente de outras células, as hemácias não sofrem apoptose na circulação. Elas são degradadas no sistema reticuloendotelial do baço, onde são fagocitadas pelos macrófagos. No processo de degradação, o ferro é liberado e posteriormente armazenado no reservatório de ferritina, futuramente será usado na formação de nova molécula de hemoglobina.

 

Qual a função das hemácias?

A principal função das hemácias é o transporte de gases. Esse transporte ocorre graças a uma proteína presente dentro das hemácias, a hemoglobina.
As hemácias circulam pelo corpo, levando oxigênio dos pulmões aos tecidos e captando o gás carbônico dos tecidos e levando para os pulmões para ser excretado.

 

Mas não é só isso!

As hemácias, também através da hemoglobina, funcionam como um tampão, auxiliando na regulação do pH sanguíneo.

 

O que acontece quando as hemácias estão alteradas?

As hemácias podem estar alteradas em quantidade e em forma. Como explicaremos abaixo, elas podem diminuir (eritropenia) ou aumentar (eritrocitose, policitemia) em número por diversas causas. Alguns exemplos são: diminuição da eritropoietina, hemólise intravascular ou extravascular, reacionais, mutações clonais, respectivamente.
Quanto à alteração de forma, podem estar menores (microcíticas) ou maiores (macrocíticas), apresentar formatos diferenciados (poiquilocitose).
As causas para a poiquilocitose são diversas: defeitos da membrana das hemácias, defeitos no citoesqueleto, fragmentação das hemácias, precipitação/polimerização/cristalização da hemoglobina presente nas hemácias.

 

Qual o valor normal das hemácias?

Normalmente as hemácias estão em uma concentração de 4 a 5,4 milhões por microlitro (mm3) em mulheres e de 4,6 a 6 milhões por microlitro em homens.

 

Hemácias altas, o que pode ser?

Quando o número de hemácias está aumentado na circulação, denomina-se eritrocitose. Os valores de hemácias se encontram acima de 5,2 ± 0,7 milhões por microlitro em homens e 4,6 ± 0,5 milhões por microlitro em mulheres.
A eritrocitose pode ser primária ou secundária. Na primária ocorre uma mutação clonal nas células-tronco hematopoiéticas, acarretando em aumento do número de eritrócitos acompanhado de aumento dos leucócitos, neutrófilos e plaquetas. Um exemplo desse caso é a Policitemia Vera.
Já na eritrocitose secundária não há mutação clonal, ocorre aumento dos eritrócitos de maneira reacional. Ou seja, devido ao estímulo da eritropoietina. Por exemplo: indivíduos que estão em altitudes elevadas, fumantes, pacientes com enfisema pulmonar.
Curiosamente, alguns pacientes podem apresentar um fenômeno denominado pseudoeritrocitose, no qual há uma diminuição do volume plasmático e não um aumento do número de eritrócitos.

 

Hemácias baixas, o que pode ser

A redução do número de eritrócitos denomina-se eritropenia. Normalmente quando há eritropenia a hemoglobina diminui, pois há menos hemácias contendo esta proteína. A hemoglobina diminuída caracteriza um quadro anêmico.
Depois dessa pequena introdução, vamos às causas em que isso pode acontecer:

 

Diminuição da produção de hemácias

1. Se o paciente apresentar problema renal, pode haver comprometimento na produção de eritropoietina e consequentemente diminuição na produção de hemácias. Visto que a eritropoietina é o hormônio responsável por estimular a medula óssea a produzir as células vermelhas do sangue (hemácias).
2. Em casos de carência de vitamina B12, ácido fólico ou ferro a medula óssea não tem aporte de nutrientes para produção.
3. Aplasia de medula óssea
4. Pode haver destruição eritrocitária/ hemólise intravascular ou extravascular.
5. Hemorragias

 

Quais as características morfológicas das hemácias?

Como dissemos no início deste artigo, a morfologia normal das hemácias se caracteriza por ser um disco bicôncavo com diâmetro médio em torno de 7,5 μm. Possuem um halo central esbranquiçado que ocupa cerca de 1/3 da célula.
A membrana dos eritrócitos é constituída por bicamada lipídica com algumas proteínas atravessadas: as glicoforinas e a proteína 3. A proteína principal do citoesqueleto é a espectrina.
Quando apresentam tamanho normal são normocíticas, quando apresentam quantidade normal de hemoglobina são normocrômicas.

 

Quais as principais alterações morfológicas dos eritrócitos

As alterações morfológicas são denominadas “poiquilocitose” e devem ser reportadas em laudo quando encontradas nos esfregaços. A poiquilocitose é um termo geral, mas as alterações podem aparecer causando:
1. Eliptócitos ou ovalócitos
2. Estomatócitos
3. Esferócitos
4. Drepanócitos ou hemácias em foice
5. Dacriócitos
6. Esquizócitos
7. Hemácias em alvo ou codócitos
8. Equinócitos ou hemácias crenadas.

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(Fonte: adaptado de Studocu)

 

O que são hemácias crenadas? Como e quando isso pode ocorrer?

As hemácias crenadas ou equinócitos perderam seu formato original e passaram a apresentar espículas. Essas espículas se distribuem uniformemente pelas hemácias, podendo ocorrer de 20 a 30. Pode ser causado em pacientes que estão em tratamento com heparina (ocorre um aumento dos ácidos graxos, deformando as hemácias), a diminuição de ATP (Trifosfato de adenosina).
As hemácias crenadas costumam estar presentes em pacientes que fazem uso de heparina, como dito acima; hipotireoidismo, uremia.
Essa alteração (cremação) deve ser reportada em laudo.

hemácias crenadas equinócitos espiculas ATP

(Fonte: Adaptado de https://plaquetas.wordpress.com/atlas/)

 

O que significa hemácias em alvo? Como e quando isso pode ocorrer?

As hemácias em alvo, ou codócitos, são células mais delgadas e por isso apresentam uma borda periférica contendo hemoglobina e uma área densa central.
Isso acontece devido excesso de membrana com relação ao volume do citoplasma e má distribuição da hemoglobina. Essas alterações devem ser reportadas em laudo.
As situações mais comuns nas quais são observadas essa alteração são:
1. Doenças hepáticas
2. Anemia falciforme
3. Hemoglobinopatias
4. Deficiência de ferro pós esplenectomia

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(Fonte: Adaptado de Universidade Federal de Goiás)

 

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Curiosamente, in vivo as hemácias em alvo possuem formato de sino, como podemos ver abaixo:
(Fonte: Adaptado de Células Sanguíneas – Bárbara J. Bain)

 

O que significa hemácias em lágrima? Como e quando isso pode ocorrer?

As hemácias em lágrima, ou dacriócitos, são células anormais e podem ocorrer devido à eritropoiese extramedular, ou como resultado de uma deformação causada no momento de sua passagem pelo baço.
Essa alteração é comum em anemia megalobástica, mielofibrose, síndromes mielodisplásicas, eritroleucemia, entre outras causas.
Costumam aparecer em casos mais severos e devem ser reportados em laudo.

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(Fonte: Adaptado de Universidade Federal de Goiás)

 

O que significa hemácias em rouleaux? Como e quando isso pode ocorrer?

Entre as hemácias existe um potencial físico de repulsão (devido à carga negativa dessas células), chamado potencial Zeta. Algumas situações podem fazer com que esse potencial diminua ou se anule, mascarando a carga existente nas hemácias. Como consequência elas se aproximam e se empilham, formando o Rouleaux.
Algumas situações em que o Rouleaux pode ocorrer são:
1. Gravidez – devido ao aumento do fibrinogênio
2. Doenças inflamatórias
3. Mieloma múltiplo – devido ao aumento de proteína monoclonal

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(Fonte: Adaptado de Universidade Federal de Goiás)

 

O que são hemácias hipocrômicas?

A hipocromia se refere a uma alteração na cor das hemácias devido à diminuição da hemoglobina. Neste caso as hemácias possuem menos do que 28 g/dL de hemoglobina. Já que para ser normal (normocrômicas) deveriam ter de 28-34 g/dL de hemoglobina.

 

O que são hemácias normocíticas?

Como o próprio nome sugere, as hemácias normocíticas são aquelas que apresentam um tamanho normal. Mais especificamente o seu volume corpuscular médio (VCM) está entre 80 e 100 fl.

 

O que são hemácias microcíticas ou macrocíticas

As hemácias microcíticas são menores do que as normais, apresentam diâmetro inferior a 7 μm e um VCM abaixo de 80 fL. A microcitose pode ocorrer de maneira geral na população das hemácias ou em uma parte apenas. É comum em: talassemias, anemia ferropriva, mielodisplasia.
Na macrocitose as hemácias têm um tamanho aumentado, apresentando VCM acima de 98 ou 100 fL. As situações mais comuns de ocorrer a macrocitose são: adeficiência de vitamina B12 e ácido fólico, alcoolismo, anemia aplástica, entre outros.

 

CURIOSIDADE !!!

De acordo com um artigo publicado pela revista Nature em 2018, as Steam Cell podem ter migrado para os ossos, em mamíferos, para se protegerem da radiação ultravioleta. Esse tipo de radiação pode provocar mutações no material genético dessas células. No interior dos ossos, além dessa proteção fundamental, as Steam Cell encontraram um ambiente “aconchegante” e cheio de alimento.

 

REFERÊNCIAS

BAIN, J. B. Células Sanguíneas – Um guia prático. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 13ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier Ed., 2017.
HOFFBRAND, V. A., MOSS, H. A. P. Fundamentos em hematologia. 6 ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0213-0
JUNQUEIRA, L. C. & CARNEIRO, J. Histologia Básica. 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2013.
NAOUM, P. C.; NAOUM, F. A. Hematologia Laboratorial Eritrócitos. 2ª ed. São José do Rio Preto: Academia de Ciência e Tecnologia, 2008.
ZAGO, M. A.; FALCÃO, E. P.; Pasquini, R. Tratado de Hematologia. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Atheneu, 2014.

 

Autora

 

Camilla Chinnici- Biomédica Especialista em Análises Clínicas e Toxicológicas

 

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