Diagnóstico laboratorial da Criptosporidíase (Cryptosporidium parvum)

09 set
Postado por Marina Caxias Categoria: Blog

Muitas vezes, ingerir alguns alimentos/água suspeitos de poderem estar contaminados podem causar desarranjos intestinais (diarreia). A diarreia pode ser causada por inúmeros fatores, sendo que os mais frequentes são infecções por vírus, parasitas e bactérias. Ou ainda uso de certos medicamentos, alergias alimentares e distúrbios intestinais, que geralmente podem vir acompanhados de outros sintomas como mal-estar, dor abdominal, enjoos e vômitos.
Dentre os parasitas que desencadeiam diarreia, um dos mais comuns, capaz de se hospedar em humanos e animais, está o Cryptosporidium spp., que causa a criptosporidíase.

Neste artigo iremos responder as seguintes questões:

1. O que é criptosporidíase?

2. Qual o tratamento da criptosporidíase?

3. Qual o agente causador da criptosporidíase?

4. Como é feito o diagnóstico laboratorial da criptosporidíase?

5. Como ocorre a transmissão da criptosporidíase?

6. Qual o tratamento da criptosporidíase?

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O que é criptosporidíase?

Criptosporidíase é uma doença que ocorre mundialmente, responsável por grande parte das doenças diarreicas, acometendo uma alta porcentagem da população de países com condições sanitárias precárias.
A gravidade e a duração do quadro clínico são influenciadas pela resposta do sistema imune e do estado nutricional da pessoa infectada, e da terapia adotada para o tratamento. Após um período de incubação de aproximadamente uma semana, o indivíduo poderá começar a apresentar diarreia aquosa, de odor fétido, sem muco ou sangue. Em pessoas normais, não doentes (imunocompetentes), essa doença pode causar gastroenterite (responsável por 5% dos casos), com diarreia, dor abdominal, náuseas moderadas ou até são assintomáticas. Em doentes imunocomprometidos, como com AIDS, causam doença semelhante à cólera com diarreia abundante potencialmente mortal. Como esses pacientes podem perder pelas fezes muitos nutrientes que não foram absorvidos, o estado nutricional do paciente é extremamente importante para resistir à doença.

Qual o agente causador da criptosporidíase?

A criptosporidíase é uma doença causada pelos parasitas unicelulares, dos tipos coccídios Cryptosporidium parvum e C. hominis, espécies mais comuns em humanos. Esse parasita é capaz de infectar células epiteliais dos tratos gastrintestinal e respiratório de vertebrados. Abaixo temos um esquema representando o ciclo de vida do Cryptosporidium spp.
Quaisquer alimentos, água ou objetos contaminados com oocistos que entrarem em contato com a boca de um indivíduo podem vir a infectá-lo; ocorrendo o chamado transmissão fecal-oral direta e imediata.

agente causador da criptosporidíase cryptosporidium parvum

Fonte: adaptado de Centers for Disease Control and Prevention Image Library.

 

No esquema a seguir temos ilustrado o que ocorre dentro do organismo humano, quando infectado. Esporozoítos (a) do Cryptosporidium spp. são liberados e parasitam as células epiteliais do trato gastrointestinal (b) ou outros tecidos. No interior das células os parasitas se transformam em trofozoítos (assexuados), que sofrem o processo de merogonia durante o período de desenvolvimento de merontes (d-f), se multiplicam e se transformam em microgamontes e macrogamontes (g e h, sexuados) que se acasalam e produzem oocistos (i e k). Os oocistos infectantes são excretados nas fezes (ou outros meios, como perdigotos) do hospedeiro infectado.

agente causador da criptosporidíase cryptosporidium parvum

Figura da tese de Nakashima, 2018.

Como é feito o diagnóstico laboratorial da criptosporidíase?

O diagnóstico é confirmado pela identificação de oocistos nas fezes. Há a necessidade de se repetir o exame por 3 ou mais vezes, pois a excreção de oocistos é variável ao longo de um dia e entre os dias.
O método mais efetivo e usado é a coloração álcool ácido resistente, que dá cor vermelha aos oocistos. Outras técnicas de coloração incluem Giemsa, PAS e tricrômio, que colorem os oocistos ou agem como coloração negativa. Sangue e leucócitos são encontrados raramente na diarreia por Cryptosporidium parvum.
Os testes sorológicos (imunofluorescência indireta e ELISA) são mais usados em estudos epidemiológicos, com aplicação diagnóstica. Níveis elevados de IgM e/ou IgG podem ser detectados duas semanas após o início dos sintomas, persistindo por períodos prolongados, mas IgM pode também sugerir possível reexposição nas áreas endêmicas.

Qual o tratamento da criptosporidíase?

Há algumas possibilidades de tratamento para criptosporidíase.
• A espiramicina é uma droga efetiva para pacientes imunocompetentes, mas parece ter pouco ou nenhum efeito nos imunodeprimidos;
• O uso de azitromicina promoveu a melhora imediata do sintoma em duas crianças com câncer e diarreia associada ao Cryptosporidium sp;
• A paramomicina pareceu gerar os melhores resultados em pacientes com AIDS.

Como ocorre a transmissão da criptosporidíase?

A transmissão ocorre de maneira direta, sem necessidade de outro hospedeiro (hospedeiro intermediário) além dos humanos. Alimentos, água ou objetos que possam estar contaminados com oocistos do parasita, entrando pela boca ou vias respiratórias podem infectar o indivíduo.
O uso rotineiro de cloro na água de beber não é eficaz para matar os oocistos. Outra fonte comum é o leite de vaca não pasteurizado. Assim a recomendação é seguir regras de higiene sanitária e boas práticas de higiene, lavar sempre frutas e verduras, lavar as mãos após utilizar o banheiro. Ou seja, evitar que a transmissão fecal-boca aconteça.

Referências

https://www.cdc.gov/media/subtopic/images.htm

Motta MEFA, Silva GAP da. Diarréia por parasitas. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2002;2(2):117–27.

Nakashima, Flávia Terumi. Diagnóstico de Criptosporidiose em crianças de creche de Petrópolis, RJ. Universidade Federal Fluminense; 2018.

 

Autora

Clarissa Fantin Cavarsan – Biomédica, Doutora em Neurofisiologia (2010), Pós-Doutora em epilepsia. Pesquisadora da University of Rhode Island.

 

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