Gama GT (Glutamil transferase) alta: o que isso quer dizer?

25 nov
Postado por Marina Caxias Categoria: Blog

Neste texto, exploraremos o exame de gama GT e vamos investigar o que significam valores de GGT altos!

 

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Gama GT (Glutamil transferase) e os exames de saúde hepática

O hepatograma é um conjunto de exames utilizado na análise da saúde hepática. A dosagem de diferentes enzimas presentes no metabolismo hepático permite a identificação de possíveis patologias, causadoras ou secundárias às condições clínicas do paciente, como etilismo, hepatites, dentre outras. Alguns exames são destinados à avaliação de lesões celulares, como de aspartato aminotransferase (AST) e alanina aminotransferase (ALT). Outros exames como a Gama GT (gama glutamil transferase, ou GGT) e fosfatase alcalina podem indicar lesões nas vias biliares.
No caso da GGT, sua especificidade para lesões hepáticas não é tão grande quanto a especificidade de AST e ALT. Desta maneira, concentrações elevadas de GGT podem não significar somente lesões no trato biliar, mas também algumas outras patologias no coração, pâncreas ou do próprio fígado. Ainda, o exame de GGT não é considerado de rotina no hepatograma. Este é normalmente requisitado em casos de suspeita de complicações nos ductos biliares. Vamos explorar ao decorrer do texto sua aplicação como marcador.

 

A Gama GT como marcador de saúde hepática

A principal aplicação do exame de Gama GT é o diagnóstico de complicações nas vias biliares, como obstruções causadas por cálculos, cirrose biliar, infecções (chamadas de colangite) e carcinomas nos ductos biliares. Mais de 90% dos pacientes demonstram grandes elevações de sua concentração sérica nestas condições. As concentrações séricas de GGT normalmente aumentam antes de outras enzimas marcadoras no diagnóstico destas doenças, tornando-a assim um bom marcador preditivo. Especificamente no caso de obstruções nas vias biliares, observa-se o aumento conjunto de GGT e da fosfatase alcalina. Entretanto, também devemos considerar que outras doenças hepáticas, como a cirrose hepática alcóolica ou a hepatite, e ainda, episódios de infarto agudo do miocárdio, também são frequentemente caracterizados pelos aumentos de GGT sérica. Assim, o exame de GGT não possui grande especificidade. No caso do diagnóstico de complicações nos ductos biliares, o exame de GGT também é combinado a outros exames como bilirrubina, fosfatase alcalina, ALT e ultrassonografias.

 

O exame de Gama GT

Para a coleta de amostra de sangue para este exame, é necessário o jejum do paciente por pelo menos 8 horas, dado que as concentrações séricas de Gama GT diminuem logo após as refeições. A suspensão (quando possível) da administração de alguns medicamentos (a serem discutidos adiante) e a suspensão do consumo de bebidas alcóolicas por pelo menos 72h antes da coleta também se faz necessário. O soro colhido é estável por até 5 dias em ambiente refrigerado (2 a 8 °C).
A técnica normalmente empregada para a quantificação da atividade de Gama GT no sangue é um método cinético colorimétrico, que afere a capacidade da GGT em catalisar a transferência do grupo gamaglutamil da gamaglutamil-3-carboxi-4-nitroanilida para a glicilglicina, liberando assim gamaglutamilglicilglicina e 3-carboxi-4-nitroanilina. Para tanto, avalia-se a concentração de p-nitroanilina utilizando a leitura da absorbância desta no comprimento de onda de 405 nm por um fotômetro ou espectrofotômetro. A quantidade liberada de p-nitrolinina é diretamente proporcional à concentração de GGT na amostra.

exame de sangue Gama GT alta elevado análise da atividade de Gama GT

Legenda: Reação utilizada para a quantificação de Gama GT. A transformação promovida pela GGT sobre o GG-3-carboxi-4-nitroanilida, retirando-se o grupo gama-glutamil (GG) e inserindo-o à molécula de glicilglicina e consequente formação da produto 3-carboxi-4-nitroalinina pode ser utilizada para quantificação das concentrações de GGT séricas, dado que, a quantificação de 3-carboxi-4-nitroalinina pela leitura espectrofotométrica à 405 nm mostra-se diretamente proporcional à atividade enzimática na amostra. Desta maneira, quanto maior a formação do produto, maior a concentração de GGT na amostra (fonte: https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/gamma-glutamyltransferase).

 

O que significa Gama GT alta no exame de sangue?

Doenças não relacionadas ao fígado, como infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, pancreatite aguda ou câncer de pâncreas, ou ainda, o consumo crônico de medicamentos como barbitúricos, corticoides e anticonvulsivantes (como a fenitoína) aumentam significativamente as concentrações séricas de Gama GT. O etilismo também é associado a elevação das concentrações séricas de GGT. Na verdade, mesmo pequenas doses de álcool são capazes de aumentar sua concentração no plasma sanguíneo. Pacientes com diabetes, hipertireoidismo, artrite reumatoide ou doença pulmonar obstrutiva também apresentam valores aumentados de GGT. Estas elevações se devem ao fato de que a GGT não é expressa somente no fígado e, principalmente pela utilização de medicamentos para o tratamento das patologias, como os corticoides no tratamento de artrite reumatoide ou doença pulmonar obstrutivas.

Gama GT alta no exame de sangue calculos biliares coledocolitíase

Legenda: O exame de Gama GT pode indicar, na maior parte dos casos, coledocolitíase (cálculos biliares). Entretanto, algumas outras patologias hepáticas também são caracterizadas por aumentos da GGT sérica, como hepatites e cirrose hepática. Além disso, outras patologias não associadas ao metabolismo hepático, como o infarto agudo do miocárdio ou a pancreatite aguda também mostram concentrações aumentadas de GGT. Desta maneira, considerando a baixa especificidade do exame de GGT, para o fechamento do diagnóstico recomenda-se a combinação dos resultados.

 

Qual o valor normal do exame Gama GT?

A concentrações normais de Gama GT assumidas como valor-referência são diferentes entre homens e mulheres: 8 a 41 U/L para mulheres e 12 a 73 U/L para homens. Concentrações inferiores aos valores-referência normalmente não são associadas a qualquer condição patológica. Para a interpretação dos valores aumentados, devemos antes entender a função fisiológica da GGT. A função fisiológica da GGT é o transporte de aminoácidos e peptídeos ao interior celular. A GGT também atua na regulação de concentrações celulares de proteínas antioxidantes, como a glutationa. Assim, sua atividade fisiológica está amplamente associada à manutenção do metabolismo celular. Condições patológicas que promovem danos celulares, especificamente das células dos ductos biliares, passam a desafiar a função fisiológica de GGT e, o extravasamento desta à corrente sanguínea é resultado do dano celular promovido nas vias biliares. O mesmo raciocínio pode ser utilizado para os aumentos observados nas outras condições citadas, no entanto, relacionando danos específicos ao tecido afetado.
O exame de GGT não costuma ser um exame de rotina, como abordado anteriormente. Além disso, a combinação dos resultados de GGT e fosfatase alcalina, por exemplo, também pode ser muito útil no diagnóstico de doenças que afetam o tecido ósseo. No caso, quando ambas estão aumentadas, sugere-se danos hepáticos; entretanto, quando apenas a fosfatase alcalina está aumentada, a sugestão passa a condições patológicas relacionadas ao metabolismo ósseo, como a doença de Paget ou outra complicação associada à formação dos ossos.

 

A Gama GT aplicada no contexto do etilismo

Pequenas doses de álcool já são capazes de aumentar substancialmente as concentrações de Gama GT, assim, as concentrações de GGT frequentemente estão muito aumentadas em pacientes etilistas crônicos. O uso abusivo do álcool de maneira aguda pode elevar as concentrações séricas de GGT por até 28 dias. No contexto clínico, sua avaliação está diretamente associada ao diagnóstico e de monitoramento do quadro clínico de pacientes, dado que elevações de GGT não costumam estar acompanhados de aumentos similares em outras enzimas do metabolismo hepático. Ainda, observa-se no caso dos pacientes etilistas crônicos que a retirada do álcool diminui suas concentrações séricas, ao passo que, em casos de recidiva, suas concentrações se elevam novamente, perdurando por até 20 dias.

 

Conclusão

Verificamos que a Gama GT é amplamente expressa no organismo, porém, com importante papel para o diagnóstico de doenças, sobretudo relacionadas à obstrução das vias biliares. Entretanto, devido à sua baixa especificidade, a avaliação da concentração sérica de GGT também é combinada a outros exames para a identificação de doenças hepáticas, pancreatite ou infarto agudo do miocárdio. A avaliação das concentrações de GGT em pacientes etilistas crônicos fornece evidências clínicas para o monitoramento do quadro clínico destes.

 

Referências

http://www.ciencianews.com.br/arquivos/ACET/IMAGENS/livros/acesso_gratuito/Livro_completo%20-%20doencas-que-alteram-o-exame-bioquimico.pdf
http://www.hepcentro.com.br/exames.htm
http://www.rbac.org.br/artigos/avaliacao-da-atividade-de-enzimas-hepaticas-em-dependentes-ex-dependentes-e-nao-usuarios-do-etanol-48n-3/
https://www.labcorp.com/help/patient-test-info/gamma-glutamyl-transferase-ggt
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4620378/
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4717728/
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5485402/
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302005000400014

 

Autor

Leonardo André da Costa Marques – Biomédico, Mestre em Farmacologia

 

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