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Oncocercose (Onchocerca volvulus): ciclo, sintomas, tratamento, transmissão e prevenção

14 ago
Postado por Marina Caxias Categoria: Blog

Neste artigo vamos falar sobre Oncocercose (Onchocerca volvulus). Iremos responder as seguintes questões neste artigo:

1. O que é oncocercose?

2. Qual o nome do agente causador da oncocercose?

3. Quais os sintomas da oncocercose?

4. Como é o tratamento da oncocercose?

5. Qual a forma de prevenção da oncocercose?

6. Como é feito o diagnóstico da oncocercose?

7. Qual o modo de transmissão da oncocercose?

 

Boa leitura!

 

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Oncocercose: Introdução

A oncocercose é uma doença parasitária endêmica em 37 países, sendo 30 na África, 6 na América Latina e 1 na Ásia. No Brasil se deu durante o período de escravidão, por meio do tráfico de escravos, devido ao continente africano ser a região endêmica da doença. Desde o primeiro caso registrado no Brasil, por volta de 1967, várias pesquisas se iniciaram para esclarecer sua prevalência e distribuição, e mesmo com um número subestimado de indivíduos estudados, devido ao difícil acesso aos povos, chegaram no resultado de que a região endêmica brasileira seria o estado do Amazonas e mais especificamente o povo Yanomámi. Os Yanomámis se situavam numa região que fazia fronteira com a Venezuela, o que poderia ser um passo para disseminação progressiva e periférica. Além disso há o risco de disseminação desta parasitose para outras regiões do Brasil, devido à área dos índios Yanomámis possuir grandes jazidas minerais ricas em ouro, diamante e cassiterita, e são frequentemente invadidas por garimpeiros. Desde 1993 continuaram os estudos para mapear a região para melhor compreensão epidemiológica e cultural da doença, como ilustra a Figura 1.

Oncocercose Onchocerca distribuição da oncocercose transmissão

Figura 1: Distribuição da oncocercose e dos países com transmissão contínua em 2013, adaptado da OMS (A. HOTTERBEEKX et al., 2019).

A partir destas pesquisas, a fim de avaliar o impacto e impedir a disseminação da doença, desenvolveu – se o Programa de Eliminação da Oncocercose nas Américas (OEPA), que envolvem os ministérios da saúde do México, Guatemala, Colômbia, Equador, Venezuela e Brasil. Em 2019 o ministério da saúde brasileiro publicou uma atualização em seu site com o título de que o “Brasil está quase livre da Oncocercose”, após uma conferência com os membros coordenadores e diretores dos 6 países endêmicos envolvidos na OEPA, demonstrando que a adesão ao programa e a padronização de medidas profiláticas e preventivas estão surtindo efeito.
 A consequência de maior importância em decorrência da oncocercose é a cegueira completa que pode ocorrer na fase aguda da doença, estima–se que mais de 1 milhão de pessoas estejam cegas ou com deficiência visual grave em decorrência da oncocercose e comorbidades. Estudos já evidenciaram o glaucoma como comorbidade de oncocercose o que leva à necessidade de investigar a doença e suas associações.

 

O que é Oncocercose?

­Oncocercose é uma parasitose de regiões tropicais, que acomete o tecido conjuntivo e ao morrerem liberam seu conteúdo, moléculas que causam reação inflamatória intensa e um conjunto de complicações denominado de oncodermatite, em seu estado agudo pode culminar em cegueira completa, por esse motivo é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como endemia grave, sendo um obstáculo para o desenvolvimento socioeconômico. Em razão de sua manifestação mais grave e suas áreas endêmicas serem mais próximas de rios essa doença é conhecida como “cegueira dos rios” e “doença de além-mar”.

 

Qual o nome do agente causador da oncocercose?

A oncocercose é causada pelo nematódeo do gênero e espécie Onchocerca volvulus, ordem spirurida e família onchocercocidae, que vivem enovelados na forma de nódulos fibrosos subcutâneos denominados de oncocercomas. Cada oncocercoma abriga um casal de parasitas adultos que podem viver aproximadamente por 15 anos. O vetor biológico do O. volvulus são as moscas negras do gênero Simulium, conhecidas no Brasil como “borrachudo”, que através da picada transmitem estágios infectantes das larvas para o ser humano.

 

Quais são os sintomas da oncocercose?

A principal manifestação clínica é a reação inflamatória e os nódulos formados na camada subcutânea do hospedeiro. A oncodermatite é um sinal cutâneo da oncocercose, que se caracteriza como uma erupção cutânea, com comichão, denominada oncodermatite papular aguda, que é causada devido a uma resposta imune contra as microfilárias que estão morrendo. Se não for devidamente tratada a infecção progride para uma oncodermatite papular crônica uma lesão pruriginosa, hiperpigmentada que pode ou não estar associada a escoriações. Na fase crônica a inflamação intensa e a obstrução linfática levam à atrofia da derme, onde o aspecto é de uma pele seca e enrugada. A manifestação ocular se caracteriza por uma perda progressiva da visão. Ocorrências neurológicas estão sendo evidenciadas por estudos e podem aparecer como convulsões epilépticas.

 

Qual a forma de transmissão da oncocercose?

O ciclo de vida do O. volvulus começa quando uma mosca fêmea do gênero Simulium, para dar continuidade ao ciclo de oviposição, morde o ser humano infectado com O. volvulus. Após a ingestão de sangue infectado, as microfilárias migram para os músculos torácicos. Algumas microfilárias não conseguem atingir o local e morrem pela ação de enzimas digestivas do inseto. Nos músculos torácicos atingem seu primeiro estágio de Hoffmann (L1). Após dois dias a larva continua com o processo de transformação (L2). O trato digestivo da larva é totalmente definido após 3 dias e passam para o terceiro estágio (L3) onde migram da hemocele e musculatura da mosca para a tromba. Todo esse processo soma 2 semanas e então ao picar o ser humano inoculam as larvas em seu estágio L3 presentes na tromba que fazem a flebotomia. No tecido subcutâneo do hospedeiro, o ser humano, a microfilária passa para o quarto estágio larval (L4) e posteriormente para o quinto (L5) onde podem se reproduzir e reiniciar o ciclo.

transmissão da oncocercose onchocerca volvulus

Figura 2: Ciclo de O. volvulus. Adaptado de VIVAS-MARTÍNEZ et al., 2007.

 

Como é feito o diagnóstico da oncocercose?

O diagnóstico geralmente é feito através de biópsia de pele, que é o método mais específico, onde a densidade microfilar é calculada na biópsia por miligrama, ou seja, o número de microfilárias emergentes é dividido pelo peso em mg da biópsia. Testes de exposição podem ser feitos para auxiliar o diagnóstico: marcadores hematológicos gerais de parasitoses como o aumento de eosinófilos e basófilos e testes imunológicos com marcadores para IgE e IgA, e atualmente têm se estudado a possibilidade de diagnóstico molecular por PCR com auxílio de técnicas como NGS (Sequenciamento de Nova Geração).

 

Como é o tratamento da oncocercose?

O tratamento é feito com medicamento anti-helmíntico específico para microfilarioses a Ivermectina. A Ivermectina, que têm como alvo os canais de cloreto acoplados ao glutamato, produz paralisia nos músculos dos parasitas o que inibe a alimentação, tendo como princípio de que a ingestão é a principal fonte de sobrevivência desses agentes no hospedeiro. Este medicamento tem baixa afinidade com os canais de cloreto de mamíferos e por isso é tolerável ao hospedeiro, porém não é indicado para crianças com menos de 15 kg, gestantes e pessoas com complicações neurológicas.

 

Qual a forma de prevenção da oncocercose?

Recomenda–se evitar a exposição prolongada ao inseto vetor em áreas de proliferação como vegetações e rochas, utilizar roupas que cubram maior parte do corpo, caso esteja em região endêmica, usar repelentes e mosquiteiros. Evitar áreas endêmicas como arredores das terras Yanomámi, no norte do Brasil, nos estados do Amazonas e Roraima e na fronteira com a Venezuela.

 

Perspectivas futuras e estudos

É importante ressaltar que é necessário fazer paralelos estudos com indivíduos que possuam imunodeficiências primárias, estes estão mais suscetíveis a infecções recorrentes devido às respostas imunes primárias ineficientes. Além disso, a cegueira completa e as crises convulsivas são agravantes importantes e sinalizam comorbidades que precisam ser explanadas em estudos de associação. Estudos já apontam que técnicas moleculares podem ser desenvolvidas a partir dos produtos moleculares das microfilárias.

 

Referências Bibliográficas

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Brasil está quase livre da Oncocercose. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 8 de nov. de 2019. Disponível em <https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/45984-brasil-esta-quase-livre-da-oncocercose> Acesso em: 29 de jun. de 2020.

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VIVAS-MARTÍNEZ, S. et al. – La oncocercosis humana en el foco amazónico. – Bol. Mal. Salud. Amb., v.47 n.1, Maracay ene, 2007.

 

Autora

Caroline Aliane De Souza Prado

Biomédica

 

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